20 de janeiro de 2013

Os dois Ricardos



Em tempos idos, havia uma revista de nus femininos chamada Ele&Ela. Creio que não existe mais há alguns anos. Nem sei se hoje em dia ainda há quem compre revistas de nus, com tanto material disponível, inclusive ao vivo, Internet afora. Naquela revista havia uma sessão que marcou época. Era uma sessão chamada Fórum onde eram publicados relatos, minicontos na verdade, enviados por amadores. Alguns até bastante bons. A maioria, estórias um tanto toscas de encanadores que encanavam as donas das casas, pintores que não se faziam de rogados, mecânicos, até outros profissionais. Tudo sempre permeando relações quase fantasiosas entre homens e mulheres.

A história aqui neste post tem duas diferenças em relação àquelas do Fórum da Ele&Ela. Aconteceu entre dois homens e foi real.

Os dois Ricardos

Esperou o funcionário da empresa telefônica quase toda a manhã. Ligou duas vezes para confirmar. Quando já se preparava para o banho, desistindo de ver instalados o telefone e a conexão com a Internet, toca o interfone. Apesar do adiantado da hora, permitiu que subisse. Abriu a porta e quase levou um susto! Disfarçou o constrangimento olhando para o crachá do rapaz. Eram homônimos. “Ricardo também?!, por aqui, por favor”. Mostrou a caixa onde chegava o fio. O rapaz mete um troço nos ouvidos, faz alguns testes. Ricardo, o dono da casa, permanece ao lado, já meio sem controle sobre a taquicardia e a moleza iminente nas pernas. Ricardo, o funcionário, parece conhecedor do assunto. Levanta-se para fazer mais testes, agora em pé. Olha para Ricardo, o contratante, e pergunta, com uma fingida timidez:

 -- O senhor malha há muito tempo?
-- Você, por favor, e não malho, cara, só faço exercícios aeróbicos.
-- Pensei, tá com o peitoral em cima!
-- Obrigado! Desculpa te receber assim. Já tinha desistido de esperar. Tava indo pro banho...
-- Ainda bem que cheguei antes, né. Assim o senhor não perde o dia pela espera!
-- Não perdi mesmo.

Ricardo, o funcionário, abaixa-se para fechar a caixa e testar o telefone. Pede que seja testada também a banda-larga. Tudo funcionando. Ricardo, o contratante, enquanto sentava-se em frente ao computador, começou, sem perceber, a tocar os próprios mamilos, numa atitude que foi entendida pelo outro Ricardo como insinuação. Não se fez de rogado, começou a passar sutilmente as mãos pelo corpo, fingindo uma naturalidade que ambos sabiam desnecessária àquela altura.

Ricardo, o dono, levanta-se e declara:
-- Tudo em ordem!
-- Posso ir, então?
-- Se quiser...

Ricardo, o dono, vai até a porta, o outro espera próximo. Quando se vira, Ricardo o funcionário ataca. Não precisaram dizer palavras. Meia-hora depois estavam os dois nus e exaustos no sofá. Nem perceberam as janelas escancaradas. O caso não terminou aí, como seria esperado. Ricardo, o funcionário, ligou no dia seguinte. Começaram a se encontrar, a sair. Em dois meses, estavam namorando e, apesar da diferença de idades de quase quinze anos, nenhum dos dois achou que havia nada que os impedissem de viverem juntos um amor que, então, era inequívoco para ambos. Viveram juntos por dois anos.

Um dia, Ricardo, ainda o dono do apartamento, chegou de uma viagem a trabalho e não encontrou o antigo funcionário em casa, como seria normal àquela hora. Apenas uma foto e um bilhete: "Aí sou eu e minha noiva. Vamos nos casar no mês que vem. Não consegui, meu lindão! Sou menor do que tudo que vivemos juntos. Espero que um dia você possa me perdoar."
Mas Ricardo, o dono, sabia que não havia nada a ser perdoado. Apenas fingiram não saber, ao longo daqueles dois anos, o caminho que  seguiriam. Sóa não sabiam quando a separação viria.

Ficou se perguntando: por que viver tudo isso e fugir assim? Nunca teria a resposta. A única coisa que pensava era que tinha valido a pena!